15/11/12 [TEXTO] Casa do Macaco Velho. Lotação 5 macacos. – Domingos Martins por João Luiz de Oliveira

Domingos Martins, população aproximada: 30 mil habitantes. Cidade de serra. Riqueza d’água. No percurso, Mata Atlântica quase que fechada num vale quase infinito, cheio de curvas. Eucalipto, palmeiras de distintas espécies, cafezais, e outras inúmeras plantações, como de hortaliças, inhame, banana-da-terra. Mais curvas. Chegamos a Pedra Azul. Enorme monumento naturalmente belo; frondoso em suas formas e cores. Algumas manchas de cor marrom, outras verdes, e dizem que por alguns dias, dependendo da luz solar, se pode ver a tonalidade que lhe dá o nome: azul. A população local está tentando outorgar a essa beleza o título de Patrimônio Natural da Humanidade, através da Unesco. O que tem de único essa maravilhosa anciã é uma parte de seu corpo, como uma unha, cabelo ou até tatuagem, no formato de um lagarto. Tomando banhos de sol, lua e muita chuva constantes.
Montanhas vertiginosas, vistas incríveis, absurdas pedras que assistiram a toda a vida no planeta. Um lugar com uma energia incrível, a cidade é abraçada por esses vales verdes de terreno muito fértil.  Ao lado do capitão da vez, Henrique, o simpático motorista da Secretaria de Turismo e Cultura, passamos o dia inteiro de um lado para o outro, buscando os lugares por onde passa o rio Jucu ou algum de seus afluentes. Buscávamos uma das nascentes , e as indicações nos levaram por uma jornada incrível de muitas plantas e cores, mas infelizmente nenhuma nascente, apenas alagados, mosquitos e mata muito fechada, o que nos desmotivou a meter-se sem um guia! Porém o passeio foi produtivo: desenhos, impressões, ideias, imagens em movimento foram compartilhadas. Para um bom viajante, creio que basta e abastece.
Com o final do dia, o querido motorista-guia-AMIGO Henrique nos convidou a dormir na casa de sua família, a poucos minutos do centro da cidade de influencia majoritariamente alemã. Aceitamos. Chegando lá, nos contou um pouco mais sobre sua vida: como suplementava a renda familiar com um trabalho artesanal e um carrinho de cachorro quente e salgadinhos fritos, sobre a filha modelo do primeiro casamento, os problemas com o filho adolescente do segundo e atual casamento, com Neusa, uma mulher muito bondosa que nos recebeu de braços e sorriso abertos. Os filhos, Rhainer e Nicolas, tímidos, porém muito interessados em participar de nossa chegada à sua casa.
Pela manhã, partimos em busca de novas partes do rio, lugares mais acessíveis. Chegamos à outra pedra enorme. Uma que separava o encontro de um córrego com o rio Jucu –   o encontro das águas se dava embaixo dessa pedra. Logo que chegamos, uma mulher, Isaura, me perguntou o que é que olhávamos ali. Expliquei-lhe sobre o projeto Mergulho Poético e perguntei se não teria fotos antigas, ou histórias do rio para nos contar. Recomendou-nos que falássemos com sua sogra. Dona Ana.
Um momento idílico. Digno de inúmeras fotos e sensações. Dona Ana, descendente de italianos, é uma jardineira elétrica. Além de depositar (creio eu) que metade de seu amor e atenção ao seu jardim infinitamente diverso, Dona Ana também costura, faz tricô e ajuda os vizinhos com mudas ou sementes de suas plantas ou auxilio na hora de suturar algo, pingar colírio, ou acredito que simplesmente escutar o que as pessoas lhe tem a dizer. É uma boa ouvinte, e boa falante também. Nos contou que sua maior angústia com relação ao rio Jucu é a maneira como muitos agricultores da região não se preocupam muito com a maneira como se desfazem das embalagens plásticas de agrotóxicos, que muitas vezes, pela correnteza, vão parar na frente de sua casa, embaixo dessa linda pedra.
Dona Ana é ciente do perigo que isso apresenta para o presente e futuro de sua vida nesse lugar, muito diferente de seu passado. Passado quando, para ela, não existia tanto consumismo, desperdício, e que as pessoas aprendiam mais coisas, prestavam mais atenção às coisas, de maneira integral, e não perdidas num fluxo efêmero de necessidades criadas. Após essa e outras declarações, lhe convidamos a que nos apresentasse suas plantinhas e seu hermoso jardim.
Além de muitas espécies de bromélias e orquídeas, dona Ana também tem um grande acervo de suculentas, jabuticabeiras, ervas medicinais, inhame, palmeiras e um berçário de mudas enorme. Nos encantou essa senhorinha de coração tão jovem, e marcamos com ela um encontro para o nosso retorno à cidade. Me deu de presente um item invejável: uma linda suculenta cujas folhas são contornadas por uma fina linha bordô. Linda demais!
Após o almoço com direito até a sobremesa, graças a um apoio que recebemos de um restaurante,  partimos para os dois últimos destinos do dia: a usina elétrica da região e  a Cachoeira do Galo. Ambos os lugares impressionantes na abundancia das águas. A usina, claro, causou um pouco de desconforto aos olhos de um amante da natureza, mas pudemos notar que aparentemente o impacto não era tão grande. A cachoeira, uma beleza, alta e com um fluxo de água muito forte. Me parece um lugar interessantíssimo para uma puesta en escena, coisa que espero fazer ao regressar a essa cidadezinha tão charmosa e tranquila.

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